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Quanto reservar para impostos como freelancer

Guia prático para perceber quanto dinheiro deves pôr de lado cada mês como trabalhador independente em Portugal. IRS, Segurança Social e um exemplo real com números.

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Recebes uma fatura de 3.000 €. Vês na tua conta e pensas: “boa, tenho três mil euros.” Mas não. Não tens. Uma parte desse dinheiro não é teu. É das Finanças e da Segurança Social. O problema é que ninguém te diz exatamente quanto.

Se és trabalhador independente em Portugal, provavelmente já viveste este ciclo: recebes, gastas com alguma prudência (ou nem por isso), e quando chega a declaração de IRS levas o susto. Ou pior: ficas a dever mais do que pensavas e tens de andar a pagar em prestações.

Neste artigo explicamos exatamente isso: quanto reservar, como calcular e porquê é melhor começar desde o primeiro recebimento.

As duas grandes fatias: IRS e Segurança Social

Como trabalhador independente em Portugal pagas duas coisas principais:

  1. IRS (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares), o que pagas às Finanças conforme o que ganhas.
  2. Contribuições para a Segurança Social: o que pagas mensalmente para ter proteção social (reforma, doença, parentalidade).

Há um terceiro que muita gente confunde: o IVA. Mas o IVA não é um imposto teu. É um imposto do teu cliente que tu cobras e entregas ao Estado. Não deveria afetar o teu bolso se o gerires bem (não o gastes, basicamente). Por isso, aqui focamo-nos nos dois que realmente te afetam.

1. O IRS: o imposto que cresce com os teus rendimentos

O IRS funciona por escalões. Quanto mais ganhas, maior a percentagem que pagas, mas só sobre a parte que ultrapassa cada escalão, não sobre tudo. Isto é importante e muita gente percebe mal.

Os escalões em 2025/2026 são estes:

Rendimento coletávelTaxa
Até 7.703 €12,5%
7.703 € – 11.623 €16,5%
11.623 € – 16.472 €22%
16.472 € – 21.321 €25%
21.321 € – 27.146 €32,5%
27.146 € – 39.791 €37%
39.791 € – 51.997 €43,5%
51.997 € – 81.199 €45%
Mais de 81.199 €48%

Escalões do IRS 2025/2026: taxa marginal por escalão

O ponto-chave: o IRS calcula-se sobre o teu rendimento coletável, não sobre o que faturas. E aqui entra o regime simplificado.

Regime simplificado: a dedução automática de 25%

A maioria dos freelancers em Portugal está no regime simplificado. Neste regime, para prestação de serviços, apenas 75% dos teus rendimentos são tributáveis. Os outros 25% são automaticamente considerados despesas, mesmo que não tenhas apresentado nenhuma fatura de despesa.

Isto significa que se faturas 40.000 €, as Finanças só tributam 30.000 €. É uma simplificação que ajuda (e muito) quem não tem muitas despesas para deduzir.

Dedução específica

Ao rendimento tributável ainda se subtrai a chamada dedução específica: o maior valor entre 4.104 € ou o total das tuas contribuições para a Segurança Social. Na prática, se já pagas Segurança Social acima desse valor, as contribuições funcionam como dedução. Uma coisa compensa parcialmente a outra.

Retenção na fonte

Se faturas a empresas, aplicas retenção na fonte de 25% (taxa geral para trabalhadores independentes com rendimentos da categoria B). Isto é um adiantamento do IRS, não um imposto extra. É dinheiro que o teu cliente entrega às Finanças em teu nome e que depois se desconta do que tens a pagar.

Se faturas a particulares, não há retenção. Mas tens de ter a disciplina de reservar tu próprio o valor correspondente.

2. Segurança Social: a tua proteção obrigatória

Como trabalhador independente, pagas 21,4% sobre o teu rendimento relevante. Parece simples, mas o cálculo tem os seus passos.

Como se calcula

O rendimento relevante é 70% da tua faturação anual. Para apurar a contribuição mensal:

Rendimento relevante = Rendimento anual × 70% ÷ 12

A contribuição mensal é 21,4% desse valor.

Declaração trimestral

A cada trimestre (janeiro, abril, julho e outubro) tens de entregar uma declaração trimestral à Segurança Social com o detalhe dos teus rendimentos. Com base nessa declaração, a tua contribuição mensal é atualizada para o trimestre seguinte.

Isto significa que a contribuição flutua ao longo do ano. Isso é positivo se os teus rendimentos variam, porque pagas proporcionalmente ao que ganhas.

Isenção no primeiro ano

Se estás a começar atividade como trabalhador independente, tens isenção de contribuições no primeiro ano. É um alívio real enquanto arrancas.

Exemplo prático: freelancer que fatura 40.000 € por ano

Vamos a um caso concreto. Um designer freelance, alguns anos de atividade, regime simplificado, 40.000 € de faturação anual.

Passo 1: Calcula o teu rendimento tributável

ConceitoValor
Faturação anual40.000 €
Coeficiente regime simplificado (75%)×0,75
Rendimento bruto tributável30.000 €

No regime simplificado, as Finanças assumem automaticamente que 25% da tua faturação são despesas. Não precisas de justificar nada. É automático.

Passo 2: Calcula a tua Segurança Social

  • Rendimento relevante: 40.000 € × 70% = 28.000 €
  • Contribuição anual: 28.000 € × 21,4% = ~5.992 €
  • Contribuição mensal: ~499 €

Passo 3: Calcula o teu IRS

Primeiro, determina o rendimento coletável:

  • Rendimento bruto: 30.000 €
  • Dedução específica (contribuições SS): −5.992 €
  • Rendimento coletável: ~24.008 €

Agora aplica os escalões progressivos:

EscalãoBaseTaxaResultado
Até 7.703 €7.703 €12,5%963 €
7.703 € – 11.623 €3.920 €16,5%647 €
11.623 € – 16.472 €4.849 €22%1.067 €
16.472 € – 21.321 €4.849 €25%1.212 €
21.321 € – 24.008 €2.687 €32,5%873 €
Subtotal4.762 €

Depois subtraem-se as deduções à coleta (despesas de saúde, educação, etc.), assumindo umas deduções pessoais de ~250 €:

IRS estimado: ~4.500 €

O resumo

ConceitoAnualMensal
Segurança Social5.992 €499 €
IRS4.500 €375 €
Total impostos~10.492 €~874 €

Dos teus 40.000 € faturados:

  • 10.492 € vão para impostos
  • Ficam-te ~29.508 €, ou seja, cerca de 2.459 € por mês

Isso é uma taxa efetiva de ~26% sobre a tua faturação. De cada 100 € que faturas, aproximadamente 26 € são para as Finanças e a Segurança Social.

Onde vão os teus 40.000 €: decomposição anual

A regra rápida: reserva entre 25% e 35%

Se não queres andar a fazer contas cada vez que recebes, aqui vai uma regra orientativa:

  • Faturas menos de 25.000 €/ano → reserva 25% de cada recebimento
  • Faturas entre 25.000 € e 50.000 €/ano → reserva 28%
  • Faturas mais de 50.000 €/ano → reserva 35%

Estas percentagens incluem IRS e Segurança Social. São aproximadas, mas mantêm-te a salvo de surpresas na declaração.

O truque é simples: cada vez que recebes um pagamento, põe essa percentagem de lado imediatamente. Não lhe toques. Não existe. É dinheiro das Finanças que está temporariamente na tua conta.

Regra rápida: quanto reservar por nível de faturação

Algumas coisas a rever com o teu contabilista

Este artigo simplifica as coisas de propósito. Na realidade, há variáveis que podem alterar os teus números:

  • Regime simplificado vs. contabilidade organizada: se tens muitas despesas reais, a contabilidade organizada pode compensar mais. Na simplificada, a dedução é fixa em 25%; na organizada, deduzem-se as despesas reais.
  • Deduções específicas à coleta: despesas de saúde, educação, habitação e outras que apresentas no e-fatura reduzem o IRS que pagas.
  • IVA tem a sua própria gestão: se faturas menos de 15.000 € por ano, podes beneficiar da isenção do artigo 53.º do CIVA e não cobrar IVA. Acima desse valor, tens de cobrar e entregar trimestralmente.
  • Retenção na fonte pode variar: a taxa geral é 25%, mas há situações com taxas reduzidas.
  • Regime dos Residentes Não Habituais (NHR): se te mudaste recentemente para Portugal, podes ter benefícios fiscais significativos durante 10 anos (regime em fase de transição, mas ainda aplicável a quem aderiu).

Um bom contabilista ajuda-te com tudo isto. O objetivo é que saibas em cada momento quanto podes gastar sem te meteres em problemas.

O Nett faz este cálculo por ti, todos os dias

O Nett trata automaticamente dos escalões, das contribuições e das deduções cada vez que registas um rendimento ou uma despesa.

No teu ecrã principal vês um único número: Tu Nett. É aquilo que é realmente teu. É o que realmente podes gastar depois de reservar para impostos. Sem folhas de cálculo, sem surpresas na declaração, sem aquela sensação de não saberes se estás a gastar o dinheiro das Finanças.

Registas uma fatura cobrada, e o Nett diz-te: “Destes 3.000 €, podes gastar 2.220 €. O resto é para as Finanças.” Sem cálculos. Sem surpresas na declaração.

Porque saber o que ganhas não é o mesmo que saber o que é teu. E é exatamente isso que o Nett te diz.

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